Modernidade lá, precariedade cá


O governo brasileiro adotou um modelo para os portos em que a operação é da iniciativa privada e apenas a acessibilidade, a sinalização e as áreas de acostamento ficam por sua conta. Em todas elas, o governo é relapso e não realiza o que lhe toca. Tudo fica evidente quando se vê filas de navios, o que representa elevados custos de “demurrages” (taxa que o navio paga por estar parado), por vezes, superiores aos próprios fretes. A observação é do presidente do Sindicato dos Armadores de Navegação Interior dos Estados do RS, SC, PR e MS (Sindarsul), Fernando Ferreira Becker, que, em carta aberta, considera “aberração e falta de patriotismo” a intenção da presidente Dilma Rousseff de ajudar o colega uruguaio José Mujica a construir um porto na cidade de Rocha através de um empréstimo de cerca de US$ 1 bilhão do Bndes, criando concorrência para os portos brasileiros do Sul, especialmente Rio Grande e Paranaguá.

Precariedade II

“É viabilizar um concorrente para nossos desvalidos portos usando o nosso dinheiro”, diz Fernando Becker, “pois o Bndes é nosso, do povo brasileiro, e deveria ser usado para gerar emprego e bem estar aos nossos cidadãos e em nosso país.” Diz que “é pífio e mal intencionado o argumento de que vai financiar empresas brasileiras em obras em outros países”. Há estudos para instalação da Hidrovia do Mercosul, ligando com o Uruguai, através das lagoas Patos e Mirim, criando integração que viabilizaria “um saudável intercâmbio internacional, oportunizando exportações uruguaias pelo porto de Rio Grande, o que seria um projeto sadio no qual se justificaria apoio brasileiro ao governo do Uruguai.” Becker acrescenta que a comunidade gaúcha tem se manifestado “escandalizada com a possibilidade de que se concretize essa aberração e espera ansiosamente que o bom senso impere e se cancele essa operação”.

Precariedade III

Em Rio Grande, o gargalo é a precariedade dos equipamentos de descarga para a carga hidroviária. O principal ponto de destino da produção agrícola, que é o carro chefe da economia gaúcha, é o terminal da Tergrasa, cuja concessão foi recentemente prorrogada por mais 30 anos, sem nenhuma exigência de modernização do equipamento instalado há mais de 30 anos. Os silos da Cesa, no porto público, sequer dispõem de equipamento para descarga de barcaças. “Enquanto isso — conclui Becker —, nossa produção agrícola continua sendo transportada por caminhões, a um custo maior, congestionando e causando acidentes em nossas estradas, além de criar enormes transtornos em Rio Grande com as intermináveis filas. O sistema hidroviário com que nosso Estado foi abençoado, ligando as regiões da produção com o porto marítimo, continua sendo subutilizado e desprezado pelo poder público.”

Fonte: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=161005